Segunda-feira, 31 de Julho de 2017

Carta a uma avó

Querida avó,

 

Nesta data que não queria assinalar, escrevo-te esta carta, para que a possas ler quando o vento soprar estas palavras até ti. Já lá vão 8 longos anos quando nem tempo nos deste para te dizermos um até já. Não esperávamos! Ainda tinhas tanto para ensinar! Partilhar essa tua sábia experiência de vida. Mas as tristezas que viviam no teu coração, as saudades do teu porto de abrigo, dessa terra que tratavas por tu foram mais fortes. Decidiste viajar para um novo refúgio para poderes estar em paz. Para que não víssemos as lágrimas no teu coração.

Ao escrever esta carta, viajo nas palavras e nas recordações do tempo. Lembro-me da infância naquela quinta, onde ainda hoje as flores nascem em teu tributo. Lembro-me dos pássaros que ainda hoje passeiam por lá e ainda nos cantam a melodia de um olá. Lembro-me das quedas na terra! Lembro-me de sorrir! E rir sem parar! Transpiro nas memórias das tardes quentes de agosto, dos almoços à sombra do castanheiro centenário que se curvou perante a tristeza da tua partida. Sinto o cheiro da bola de carne e da broa ao sair do forno de lenha, demasiado quente para comer, mas impossível de resistir. Sou capaz de fechar os olhos e sentir a mata, os pinheiros, o correr com calma para não escorregar. Sou capaz de sentir as memórias vivas embora já tenham passado anos e anos. Memórias nunca esquecidas de um tempo que não volta mas que fica preservado dentro de mim.

Vou até à janela da cozinha e ainda te vejo sentada num banco, a olhar as hortas em frente, num cenário urbano-campestre, que traziam as saudades que sentias das tuas plantações. Vegetais e fruta com sabor único que não volto a saborear! Olhavas horas a fio para estas hortas enquanto a tua mente divagava para um passado no campo que estava perdido, mas sempre agarrado a ti, porque tu e a natureza viviam numa melodia única de uma dança que poucos conseguem dançar.

Nascemos no mesmo mês de gerações distintas, e quem sabe seja essa a razão pela qual temos algo tão em comum que só nós sabemos. Um segredo só nosso! Partiste antes de me ensinares mais sobre o caminho que descubro em mim a cada dia. Partiste antes que te pudesse fazer as perguntas que sufocam o meu espírito. Porque saberias sempre o que me dizer. Mas sei que onde quer que estejas, me estás a ver e a sentir estas palavras. Tal como te sinto quando durmo, e me visitas para me confortares e me sussurrares ao coração para nunca perder a esperança deste meu único e grande sonho. Aquele sonho que é o meu segredo e que só os anjos que leem a alma o conhecem.

Escrevo-te na lágrima da saudade que cai no rosto e na saudade dos teus sapientes conselhos, que tanta falta fazem! Sei que os teus raios de luz vão iluminar o meu caminho, para que a mesma tristeza que um dia te levou para longe, não seja também a tristeza que fará definhar a minha alma.

Escrevo-te porque a memória não esquece. Escrevo-te na saudade. Escrevo-te porque sei que as palavras chegam até ti nas asas dos anjos.

Escrevo-te esta carta porque escrever é aquilo que sou, é perpetuar as minhas emoções no papel. A emoção da única homenagem que te posso dar hoje: as minhas mais sentidas palavras escritas por uma alma apertada na saudade.

Continua a viver na alegria desse teu paraíso e não te esqueças, escreve-me nos meus sonhos!

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publicado por Ana Cristina Gomes às 14:31

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1 comentário:
De João Jesus e Luís Jesus a 31 de Julho de 2017 às 15:04
Um texto muito bonito!

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