Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2015

Critíca de O Homem de Constantinopla e Um Milionário em Lisboa

A avidez na leitura apoderou-se de mim nas últimas semanas em que num sopro li e absorvi cada página dos livros O Homem de Constantinopla e Um Milionário em Lisboa, pois um não vive sem o outro, e os dois juntos são um só na história de ficção baseada na verdadeira história daquele que foi, no início do século passado,  o homem mais rico do planeta, o Senhor Cinco por Cento e o grande arquiteto (como gostava de ser reconhecido), Calouste Gulbenkian, retratado por José Rodrigues dos Santos com a personagem Kaloust Sarkisian, um homem de caracter persistente, com objetivos, o chamado na gíria popular, um osso duro de roer. Todas as passagens são disso exemplo, mesmo em criança, nas negociações no bazar de Constantinopla, onde, é enganado pelo comerciante, e partir desse momento toda a sua personalidade é definida. É também persistente e não desiste de lutar e conquistar o apreço dos pais de Nunuphar, filha de boas famílias, com a qual consegue casar. No negócio do petróleo, ao qual dedicou a sua vida, toda a sua vincada personalidade é percetível. Nesta questão não nos podemos esquecer de duas personagens que em muito influenciaram a vida de Kaloust pessoal e profissionalmente, Salim Bey ainda no Império Otomano e Philip Blake que o inicia nos assuntos da bolsa e com informação privilegiada.  

Kaloust foi um apaixonado pela arte e ao longo da vida colecionou obras de arte valiosas e de valor incalculável, ocupando essa paixão uma importante parte da sua vida. Na 2ª guerra vemo-lo preocupado com os seus enfants, como Kaloust chamava as suas obras. Passou a sua vida à procura da resposta para a pergunta que o atormentou toda a sua existência: O que é a beleza?

Não me posso esquecer de mencionar a sua eterna secretária Madame Duprés, amante na juventude e parceira no seu método de viver até aos 105 anos de idade, meta que estabeleceu para si, mas que tal não acontece.

De referir a vinda de Kaloust para Portugal em plena 2ª Guerra Mundial, país pelo qual se apaixona e deixa connosco o seu legado através de uma fundação. Destaco um episódio, no qual me ri em plena paragem de autocarro, quando as dificuldades de compreensão entre francês e português levam a um episódio caricato. Nunuphar a pedir manteiga, mas achando que o beurre em francês para manteiga se iria assemelhar ao português, eis que o empregado sem a perceber e sem perceber francês leva um burro para a sala das refeições. Um dos episódios mais leves de toda a história.

Mas, para mim, a passagem mais marcante de toda a história foi vivida pelo filho de Kaloust, Krikor, que ao ir atrás da sua amada Marjan, vê-se envolvido no extermínio que os Turcos lançaram aos Arménios (sendo ele próprio Arménio embora com cidadania inglesa). Desde a execução dos homens, até à chamada marcha da morte, onde Krikor, disfarçado de mulher, a viveu de forma intensa que a dor de todos trespassa para o leitor. Desde as pilhagens às famílias da morte, as violações às raparigas, à morte a sangue frio de quem já forças não tinha, são episódios emocionalmente fortes. E como todas as marchas da morte o desfecho nunca é feliz, Krikor salva-se mas passa toda a sua vida a tentar reencontrar Marjan e quando o consegue, o reflexo da marcha está vincado na sua vida. Sem dúvida esta passagem é a mais intensa que deixa marcas nas personagens e no leitor que também se sente enfraquecer no caminhar daqueles infelizes sem água ou comida.

Muito mais haveria para referir, personagens, episódios, mas a critica já vai extensa e apenas quero aumentar a vontade de quem ainda não leu, a ler esta história e não descrever toda a histórica correndo o risco de ser saturante e retirar o efeito surpresa.

Goste-se ou não se goste de José Rodrigues dos Santos como jornalista, isso fica ao critério de cada um de nós, mas o mérito de pesquisa histórica de árduo trabalho dele e da sua equipa para nos trazer factos históricos sem incorreções, isso ninguém pode por em causa. E também ninguém pode questionar que este autor se afirma cada vez mais como sendo um dos melhores autores contemporâneos nacionais. Uma escrita precisa, leve, que flui no vento que desfolha cada página. Os melhores autores são aqueles que nos transportam para dentro do livro e nos dias em que o lemos são parte de nós, amanhecem e anoitecem connosco em pensamento, pensando o que virá a seguir. Apenas os grandes escritores conseguem isso, que paremos a ler a uma velocidade estonteante cada linha na ânsia de saber o que se segue. E nesse capítulo, José Rodrigues dos Santos já se destaca. É inquestionável que o seu nome figure na prateleira dos melhores autores portugueses. Quem já leu mais que uma obra sua sabe do que falo, quem nunca leu, que se aventure nesta aventura que é saborear cada página. E podem começar por estes dois volumes, mas leiam os dois, nunca apenas um, pois vai saber a pouco. Isso também nunca aconteceria pois assim que lerem a última página de O Homem de Constantinopla vão estar com o Um Milionário em Lisboa ao lado para conhecer o auge da carreira de Kaloust! E como vou ter saudades dele e das restantes personagens após terminar este livro há pouco numa fria tarde de inverno. 

Deixo-vos a última frase que muito me emocionou e que li de lágrimas nos olhos “A beleza é a cor de que se pinta a verdade.”

 

 

 

 

publicado por Ana Cristina Gomes às 16:16

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