Quarta-feira, 6 de Junho de 2018

Mário de Carvalho "Um Deus passeando pela brisa da tarde"

Conhecia este autor apenas pelo nome. De ouvir. Nada mais. Até que uma amiga me emprestou este livro como sendo um que deveras tinha adorado. Acreditando nessa amizade, no dia a seguir, esta história começou a acompanhar-me. E logo nas primeiras páginas fui seduzida pela escrita de Mário de Carvalho, rebuscada, trabalhada, refinada e muito apurada, mas muito melodiosa para o ouvido do leitor e uma aprendizagem imensurável para quem escreve. Pormenores detalhados e rigorosos. Que abundam no livro e que são um dos motivos pelos quais este livro já foi galardoado.

Para que fique registado “Este não é um romance histórico” esclarece o autor, porque o município de Tarcisis nunca existiu. Perante tão habilíssimas descrições dos costumes e quotidianos de uma povoação do Império Romano no início do primeiro milénio: o que comem, como se relacionam, quem manda, no que acreditam, como se divertem, como julgam e o que toleram, não é fácil acreditar que é tudo ficção.

A nossa personagem principal Lúcio Valério Quíncio é um bom romano, bom homem, agnóstico e magistrado de Tarcisis – exerce o “duúvirato”, responsável pela gestão da cidade a nível jurídico e executivo. Quando Tarcisis estava ameaçada, era ele o único magistrado e o único responsável. As ameaças eram diversas e distintas. Lúcio nada temia, para com uns, sentia a pressa de estar preparado; para com os outros, sentia a necessidade de os demover. Mas o maior dos males estava mesmo em Lúcio Valério, que não conseguia deixar de pensar nele, preocupar-se desmesuradamente com ele, de tentar contorná-lo interminavelmente, para lhe chegar à fonte. E seguindo mais tradições, o autor retrata a grande mulher que está por trás de um homem, Mara que até na sua cega obsessão suporta Lúcio, sorri-lhe, afasta-lhe os fantasmas. Vezes sem conta que Mara é admirada por Lúcio, embora nunca seja apresentado a prespetiva de Mara. Assim como de Iunia, uma cristã, pela qual notoriamente Lúcio nutre um sentimento, mas ao mesmo tempo que a persegue, tentando ditar o seu destino final. Talvez no final quando Lúcio perde o rasto de Iunia seja um tão simples paralelismo com a nossa atual sociedade, em que tantas vezes deixamos perder quem amamos e fingimos não amar por não partilharem dos mesmos ideais. Assim como todo o livro pode ser uma analogia a uma sociedade, a um grupo, ou a uma outra qualquer situação de ontem, de hoje e do amanhã.

Um livro que requere atenção por ser tão cativante. O ideal para estas noites em que a primavera não chega e o outono não vai embora.

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publicado por Ana Cristina Gomes às 23:09

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