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O sopro mágico das palavras

O sopro mágico das palavras

Sonho!

Ontem vi-te. Escrevi-nos. Como se tivesses lido aquelas palavras nossas vieste visitar-me na madrugada dos sonhos. Ali tão perto de mim. Os teus olhos a centímetros do meu rosto. O teu respirar de um tranquilo ofegante. Atrás de mim. Paramos. Apertaste-me a mão. Senti essa doçura em mim. Tão real. Naquele instante de roçar a pele acordei. Como nos filmes. Continuei ali com o relógio a marcar 5h da manhã a sentir esses olhos teus no toque da mão. Acordada. A inspirar e respirar o silêncio do teu sussurrar. Os meus olhos foram visitados por aquelas lágrimas que tanto preciso de chorar. As lágrimas encarceradas dentro do meu peito. Estiveste ali. Comigo. Com a minha alma. Podia chorar. E chorei até o despertador tocar.

O dia chegou. Aquela imagem gravada em mim no meio dos afazeres e das conversas. O formigueiro na mão como se a tua ainda estivesse ali. Senti-me irracional. Foi apenas um sonho. O teu sonho.

Hoje voltei ao mesmo lugar de ontem. À mesma hora. Apenas para te ver. Real. E voltei a escrever esses olhos teus.

Imagem : Internet

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Nunca falamos!

Nunca falamos. Apenas olhamos. Olhamos tantas vezes como se não houvesse amanhã. Percorremos a estrada dos nossos olhos. Sem curvas nem rotundas, sempre a direito. Não haverá o nosso amanhã. Apenas o meu amanhã. E o teu amanhã. Algures. Por aí. Até um nosso próximo reencontro. Quando nos voltarmos a reconhecer seja em que pavimento for. Alcatrão. Calçada. Pedra. Areia. Onde os nossos pés voltarem a andar somente para se cruzar.

Nunca falamos. Sem um mero abraço. Aquele abraço. O único que queria. O teu abraço. Nunca te poderei abraçar. Sentir o teu coração-casa a pulsar no meu peito. Adormecer a almofada do sono no teu colo. Quimeras platónicas.

Nunca falamos. Nunca te poderei sussurrar que me estremeces o coração. Que me tremes os joelhos. Que fico parada porque não consigo andar. Porque as calças escondem o meu vacilar de pernas.

Nunca falamos. Nunca te poderei perguntar o que sente essa tua alma ao ler estas minhas palavras. As tuas palavras que ficam a flutuar na minha mente quando te deixo ir. Porque sei que sabes. Que sabemos. Mas nunca falamos.

Nunca falamos. Para te dizer que te sinto especial. Que não sei por que razão és especial. Não o sei explicar. Já perguntei ao universo porque te faz especial aos meus olhos. Mas esse universo continua mudo. Sem nada me dizer. Pode parar o relógio para te conseguir ver. Pode fazer desaparecer o trânsito para correr e olhar um segundo que seja para ti. Mas não me explica isto que sinto ao ver-te. Nunca falamos. Nunca compreenderemos.

Talvez não perceba. Talvez não seja para perceber. Deixar fluir o que sinto. Não esconder de mim o que sinto. Conhecer-me. Não sei como fazes isso, mas essa tua alma ajuda-me no caminho de encontro a mim. Irónico. Nunca falamos. Mas és força para mim.

Nunca falamos. Parece medo. São os nossos fantasmas reais e imaginários. Aqueles que nos perseguem nos pesadelos. Já os conheceste? Aqueles que me deixaste e os que te enviei para te atormentar. Para nunca nos sentirmos sozinhos de nós mesmos. Nunca falamos. Porque não conseguimos enfrentar o nosso fantasma.

Nunca falamos. Não posso chegar ao pé de ti e dizer como és absurdamente bonito. Há uma sociedade que não me permite dizer isso. Que nos ata os dedos num cordel que farrapa a pele. Por isso nunca falamos. Essa corda sufocou-nos a voz.

Nunca falamos. Continuemos na nossa conversa de almas. E nessa conversa posso revelar-te o eu que sou sem que outros ouvidos me censurem por gostar de ti!

Imagem : Internet

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Manhã de segunda-feira!

O relógio marca 8h30 de uma manhã de segunda-feira. Mais uma semana que se abeira de mim. O comboio corre veloz contra o tempo. As árvores fogem da vista. Vou em sentido contrário. Olho para o relógio novamente. Ainda mal amanheceu. Desejar as 18h. O regresso. A incerteza do caminho. Onde poderás estar. Lembro-me de ti. Do teu sorriso-neve que me obriga a escrever esse sorriso teu na minha alma. Lembro-me de ti. Do teu olhar mel-outono de fins de tarde que me obrigam a parar. Para olhar para ti. E respirar esse olhar teu.

O relógio marca 8h30. Ainda manhã. Arrasto os passos. Obrigo-me a ir. Na esperança do fim de tarde que tarda em chegar.

Imagem : Internet

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#opinião# Virginia Woolf "Orlando"

Iniciei este mês de fevereiro com leituras de autoras adormecidas na minha lista. Virginia Woolf, as suas poucas palavras lidas em idos tempos de escola já estavam esquecidos em mim. Por isso, nada melhor que uma nova leitura para este ano. A decisão foi aleatória, resultou de um empréstimo. Não o livro mais fácil da autora, mas parti à aventura munida de vontade e curiosidade.  

O primeiro grande impacte foi a escrita fluída e poética de Woolf que torna o correr das palavras mais harmonioso.

Podemos resumir este livro biográfico da personagem principal Orlando de um modo muito natural.

Orlando é um jovem, de 16 anos, aristocrata inglês do século XVI, na época de Isabel I, com quem acaba por privar. Sacha, uma jovem russa, era a sua paixão com contornos Shakespearianos, a grande influência desta fase.

Orlando, no entanto, tem uma peculiaridade, por vezes adormece a avança no tempo como se o dormir fosse o amadurecimento perante os diversos acontecimentos ingratos da sua vida.

No século XVIII é nomeado embaixador da Inglaterra em Constantinopla, junto da corte do Sultão, onde é um jovem de sucesso. Um dia adormece e acorda mulher. É acolhida por ciganos e regressa a Inglaterra. A viagem no tempo prossegue até Orlando chegar ao século XX com 36 anos, na época da 1ª Grande Guerra.

De uma forma simplista podemos afirmar que Orlando vive numa constante procura pelo amor, um amor sem tempo nem sexo (género). Ser homem, mulher, jovem ou velho, viver no século XVI ou XX, tudo isso são variáveis que não afectam a busca ininterrupta da felicidade pelo amor. Orlando é imortal como o seu amor por Sasha. Orlando, mesmo mulher, continua a amar Sacha.

Uma obra-prima da nossa literatura. Woolf concede um tempo infinito à personagem, iniciando o livro na era elisabetana para finalizá-lo depois da primeira guerra mundial. A obra termina após 350 anos de descrição, rompendo com o tempo dito real e substituindo-o pelo tempo da consciência, do sentimento, da memória e da vontade.

Orlando é também reflexo da paixão de Woolf pela literatura, o que considera uma terrível doença agravada pela escrita. Excertos tão suis generis representam esta visão e só por isso vale a pena ler este livro. Poetas e vida literária causam tanto sofrimento a Orlando quanto a paixão pela princesa russa que o abandona. E a única certeza é de que Orlando manterá para sempre o longo poema “O Carvalho”, fio condutor que atravessa o livro, porque em momentos escreve e apaga numa comparação à vida onde a escrita é interrupta e onde temos de apagar o mau para crescer.

Este romance é uma inspiração em Vita Sackville-West, também escritora, amiga e amante de Woolf durante vários anos, numa época em que na Inglaterra, a homossexualidade era criminalizada.

Uma leitura que todos devíamos ler, não só quem ama clássicos, quem escreve, mas todos nós que tal como Orlando procura o amor por si e pelos outros!

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