Quarta-feira, 8 de Maio de 2019

Carlos Ruiz Zafón "As Luzes de Setembro"

Era uma manhã de uma primavera salpicada de uma chuva de inverno. A tentativa de  equilíbrio no comboio entre o saco no braço e o livro na mão. As últimas páginas. Uma lágrima. Não consegui largar o livro até o derradeiro ponto final.

De todos os livros da Trilogia Juvenil “A Neblina”, este “As Luzes de Setembro” é o meu preferido. Já se nota um Zafón a treinar a mestria da escrita e do suspense. Um enredo fantástico e imaginário mais coerente. A analogia ao que somos. As nossas sombras. E tocou-me particularmente, pois embora, as personagens principais sejam jovens, aborda o tema da solidão, algo que não escolhe idades.

De forma muito simples e sem entrar em grandes detalhes para não estragar o efeito surpresa, posso dizer que esta história - as páginas deste livro, porque parte da história começou muito antes – quando Simone e os seus dois filhos Irene e Dorian, em 1937, chegam à costa de Inglaterra, Cravenmoore, para uma nova vida, depois da morte de Armand Sauvelle, pai de Irene e Dorian.

Simone será governanta de Lazarus Jann, um misterioso fabricante de brinquedos. Irene irá estreitar laços com Ismael, um jovem marinheiro e os dois viverão grandes aventuras ao longo do livro com um farol como cenário de tantos episódios deles e não só. Sem nunca esquecer a tagarela Hannah que nos fará rir e muito chorar.

A partir deste momento serão mutos os momentos de suspense, de intriga e mistério. De muitas dúvidas que Zafón consegue desencadear no leitor “como é possível?”, “o que é isto?” ou simples exclamações de emoção “oh não….”, “não pode ser”. Às vezes quase nos sentimos ameaçados como as personagens ou a querer fugir dali.  Uma escrita já com elevados níveis de adrenalina. E sempre com muito negro e neblina a envolver as palavras.

Esta história fala muito de sombras, mas mesmo num patamar de leitura fantástica, a verdade é que podemos estabelecer um paralelismo às nossas sombras, os nossos medos, enfrenta-las para que nunca nos matem. Para que nunca sejam sombras malditas.

Depois de muita correria por entre os parágrafos, fechamos a trilogia com um final negro com as cinzas de um incêndio que poisam nos nossos olhos. O queimar para purificar.

Mas fica aquele sinal de esperança, aquela lágrima que caiu na última página, quando o amor de Irene e Ismael não se perdeu com a distância após aquela noite de ameaças e destruição.

Ao contrário da tetralogia “O Cemitério dos Livros Esquecidos” que deve ser lida pela sua ordem, esta trilogia pode ser lida em separado, por isso recomendo este livro para dias e noites de chuva como estes últimos dias.

Um autor a trabalhar para ser aquele mestre que vimos em “A Sombra do Vento” num livro que lá no fundo nos pode deixar a pensar.

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publicado por Ana Cristina Gomes às 23:33

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