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O sopro mágico das palavras

O sopro mágico das palavras

A minha bola de carne

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A minha avó sabia fazer bolas de carne como ninguém. Ou talvez por gostar tanto, para mim eram e serão sempre as melhores que comi. Eram feitas com outras farinhas simples e naturais como tudo deve ser. Enchidos caseiros. O ar de fumo do forno de lenha que ficava impregnado na bola. Que aroma inesquecível de um coração tranquilo.
Eram as mãos da minha avó que faziam a bola de carne e isso fazia toda a diferença. Eram mãos de amor que na altura não sabiam o que eram e que agora descubro como o amor está em tudo. Os ingredientes eram envolvidos em afetos e tratados com respeito.
A minha avó não me deu a receita da sua bola de carne nem partilhou os segredos comigo. Deixou-me as memórias que me alimentam. Porque sábia como ela era, sabia que eu teria de descobrir a minha própria receita.
Encontrei uma receita simples e cada vez que faço, tento sempre adaptar algo, seja nas farinhas, nas carnes, no azeite, no repousar a massa. Para me ligar mais ao sabor das memórias que deixou em mim. Para ser a minha receita inspirada pela minha avó. Para a nossa ligação nunca se perder, nas nossas identidades tão parecidas e tão únicas.
Posso não ter feito a bola perfeita. Mas tem o sabor do amor, o principal ingrediente, que torna cada receita em algo especial.
Aquele amor que vou encontrando no que vou fazendo. Porque tudo tem de ser feito em amor.
Esta bola de carne cresceu, rasgou a massa e parece que desenha um sorriso. Talvez seja o sorriso da minha avó que viajou por entre tempos paralelos para me vir dizer um olá de boa Páscoa.
Porque o amor é assim, fica nas memórias que as nossas mãos modelam.