Segunda-feira, 12 de Agosto de 2019

Alpendre de emoções

Descobri um alpendre de emoções minhas. Que viviam dentro de mim e estavam adormecidas na casa abandonada que eu era. Abandonada de sonhos e esperança. Era uma casa, assim, sem vida. Sem sorrisos e risos. Despojada de emoções.

Primeiro abri uma janela. Quando te vi. Apenas abri uma fresta. Com medo do que pudesse entrar. E qual rajada de vento, escancaraste os caixilhos de uma madeira podre que a cercavam. Assim sem saber como trouxeste-me as tuas memórias que estavam trancadas na minha alma.

A luz do candeeiro do meu coração acendeu-se. Para iluminar o meu caminho. Desbravar as silvas. Essas ervas daninhas que cegaram anos do meu viver. Que os teus olhos mel-outono transformaram em flores.  

Aos poucos a casa que sou voltou a cozinhar momentos temperados com sentidos que despertaram das masmorras onde estavam encarcerados. O teu sorriso encantado enfeitiçou-me de sentidos.

Comecei a fotografar instantes e a colecionar gratidão somente por existir. Guardo cada minuto teu. Cada gesto. Guardo as memórias da vida dentro de mim.

Quando voltei a olhar para dentro de mim tinha renascido. A minha criança interior voltou ao seu mundo encantado de fadas de onde a expulsei e não lhe dei espaço para ser a essência que a criança deve ser.

Revolvi as minhas entranhas. Limpei o meu lixo emocional. Nem o deitei na reciclagem. Deixei que o mar o levasse para longe. Para ser destruído e nunca mais voltar para me atormentar.

Descobri esse alpendre de emoções que estavam dentro de mim. De porta fechada. Que tu abriste. Trazias a chave dessa cela nessa tua alma. E que me entregaste tantas e tantas vezes depois daquela tarde de sol quando nos reencontramos.

Descobri neste alpendre emoções minhas em ti. Tornei-me mais forte e mais corajosa. Talvez nunca te sentes no sofá do meu colo e te conte este segredo. Que serás sempre aquele, o mais especial. Que me treme as lágrimas de emoções. Que me estremece o corpo. Que me vive um amor que um dia sei que algures será real.

Queria-te tanto dizer como o alpendre das tuas emoções me sustentou os meus dias nos últimos meses que passaram. Esse alpendre impediu-me de quebrar e desmoronar. De voltar a ser essa casa fantasma que era antes de ti. Por ti não apaguei as luzes. Mantive-as sempre acesas. Eras o meu alento do meu caminho. O que me fazia querer avistar chegar o fim de tarde. O picar o ponto. Para somente ver-te. Naquele segundo encontrava ânimo para o dia seguinte.

Agora nesta rotina de férias tive a certeza que eras tu na rotina do quotidiano que me fazia andar de cabeça erguida. Pronta a lutar. A não desistir. A ter um motivo para sair a correr comboio fora. Ver-te e ser capaz de escrever os meus sonhos. Os desejos.

Nesta rotina de férias penso em ti e não sei ainda se sou capaz de te deixar ir. De nos deixarmos ir. Ainda preciso que me sustentes os dias. Que a tua alma esteja ali para me ajudar a preencher aqueles dias vazios que só se escrevem nos fins de tarde.

Preciso que ainda sejas aquele meu alpendre de emoções. Onde me encosto para te ver passar. Saber que tenho de tornar os meus dias como estes fins de tarde. Que me façam sentir viva. Não posso perder tempo assim. Não é isso que me tens ensinado. A desperdiçar o tempo naquilo que não me faz feliz. Não é isso que este nosso alpendre de emoções nos conta.

Queria sentar-me neste alpendre de emoções à espera. À tua espera. Para te abraçar. Agradecer-te. Beijar-te na eternidade da gratidão.

Mas talvez nunca me chegues a esta porta que abriste para a vida e que por ti nunca fechará mesmo que nunca venhas.

Este alpendre de emoções nunca irá desaparecer.

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publicado por Ana Cristina Gomes às 20:55

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