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O sopro mágico das palavras

O sopro mágico das palavras

Avó, o teu dia!

Naquele que era o teu dia de dizer olá ao sol. O teu dia oficial escrito nos documentos formais. Porque como tantas vezes dizias, o teu dia era no meu dia. Talvez só agora perceba a sintonia desse dia nosso. O nosso mês de setembro. Aquele mês especial de almas tão especiais.

Naquele que era o teu dia, minha querida avó, devia-te ter escrito, mas as palavras surgiram tardiamente rabiscadas em papel enquanto ouvia os grilos adormecerem-me na saudade dos barulhos noturnos daquela quinta que fica ancorada nas minhas recordações de ti.

Não te escrevi, não porque não me tenha lembrado de ti, porque são incontáveis as vezes que te sinto aqui quase a respirar ao meu lado. Lembrei-me de ti no desvio dos meus passos habituais da rotina da tarde, quando me cruzei com aquela alma especial de que tanto gosto. E logo, no teu dia, no nosso dia, aquela alma especial, ali tão perto do meu bater de coração. Uma alma especial como a tua ainda é. Para me lembrar de ti ao vê-lo, é porque é um corpo que dentro de si tem a cor da tranquilidade, o contorno da esperança, o arco-íris da beleza e um infinito de amor escondido atrás daquele olhar. Talvez seja a única alma que me faria lembrar de ti. Como se me dissesses para não deixar de acreditar que existem almas especiais a rondar o meu trilho.

Naquele dia, no caminho até casa, quando o sol já nos avisava que queria ir dormir, olhava para o rosto dessa alma e esperava que estivesses ali no banco ao meu lado para me explicares porquê de todas as almas que se cruzam comigo, aquela ser a mais especial. Uma resposta. Uma confirmação daquilo que sei desde sempre. Para me tranquilizares e não achar tantas vezes que estou a enlouquecer.   

Mas, minha querida avó, não estavas ali de corpo. Quando chegasse a casa, não estarias na janela da cozinha a mirar o infinito do verde das hortas. Não estava ali a tua voz para conversar comigo o mistério da vida, o enigma das emoções e tantas vezes a insanidade do coração.

Continuava a olhar para as nuvens brilhantes no céu que festejavam o teu dia, na ânsia que depois de comemorares o teu aniversário no meio dos anjos, me visitasses nessa noite, como tantas outras noites e me dissesses que tudo ficaria bem. Que me desses um sinal do porque ter tropeçado naquela alma de um corpo tão afastado de mim. Que me explicasse o inexplicável do destino. Fazer batota na aprendizagem da vida e de mim mesma. Mas sei que estás aqui para me amparar os tropeções e me agarras na mão para me reerguer.

Talvez esteja a ser demasiado egoísta apenas ao falar-te daquela alma que me enfeitiçou na imortalidade do tempo. E não falar de ti. Das nossas memórias. De querer saber como é a vida por aí no paraíso celestial. Mas eu sei que estás bem. Agora sei que estás bem porque nos sonhos me dizes que agora já estás na reforma da vida. E sabes como preciso de perceber porque os teus amigos anjos me fizeram reencontrar aquela alma, porque só assim poderei ficar bem!  Mas talvez me estejas a dizer para abrir os braços e deixar-me ir na corrente do viver. Posso não compreender isto que sinto. Mas simplesmente tenho de sentir este sentimento que está cá dentro. Fluir. Sem forçar. Ser una com a vida.

A noite vai longa, o grilo da cidade continua a cantar na tua voz que sabia a linguagem dos animais.

Agarro na almofada, enrolo-me na manta e dormito nas tuas palavras cantadas que escrevi para ti. Adormeço numa melodia de paz que me segredas ao ouvido! O segredo que une estas três almas!

 

Imagem : Internet

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