Quinta-feira, 18 de Janeiro de 2018

Carlos Ruiz Zafón "O Labirinto dos Espíritos"

Ao finalizar a tetralogia do “Cemitério dos Livros Esquecidos” com “O Labirinto dos Espíritos”, apenas tenho forças para dizer que fiquei arrebatadoramente conquistada pela escrita melodiosa de Carlos Ruiz Zafón. Uma escrita suave na intensidade das emoções que descreve numa exuberante serenidade que nos prende na primeira palavra para não mais nos largar. 

Assim sem saber em 2017 descobri um dos autores que fica na minha restrita lista de autores que digamos, venero, pelo exemplo que me inspiram enquanto uma amante perdida por palavras como sou.

Apenas uma nota para quem ainda não se iniciou nesta aventura que vicia no vício do “Cemitério dos Livros Esquecidos”. O autor afirma que os volumes podem ser lidos separadamente e sem seguir a ordem. Neste ponto, discordo categoricamente com Carlos Ruiz Zafón. Claro que se lermos os livros de forma aleatória vamos compreender cada história mas vamos perder a interligação entres os vários volumes, cortaremos o fio condutor e não iremos assimilar quando há referências a outros momentos da história. Por isso, meus caros leitores, sejam certinhos e disciplinados e leiam pela ordem de publicação dos livros. Só assim terão a plena percepção da história e não deixarão escapar um pormenor que seja! Palavra de viciada!

Uma ânsia para deslindar os mistérios que se adensaram nos últimos três volumes, o interligar as pontas deixadas soltas pelo autor num aguçar da curiosidade do leitor que não respira enquanto absorve cada frase.

Continuamos na Barcelona tétrica, de almas atraídas por abismos diabólicos, perigosos enigmas em corredores intermináveis. A Barcelona de Daniel Sempere, no pós-guerra que deixa marcas, que deixa feridas físicas e na alma.

Os anos passam, os segredos adensam-se, o labirinto parece nunca mais ter fim, pois de cada vez que parece aproximar-se a explicação do enigma há uma nova porta que se abre para outro corredor escuro, e este haverá de ter outras portas que se abrem para outros abismos. Vamos descobrir alguns dos mistérios através dos olhos das personagens. São elas que aos poucos nos vão encaminhando pela mão, fazendo-nos sentir o frio ou deixando-nos completamente perdidos. Somos levados ao coração das trevas pela mão de Alicia Gris, uma figura sombria vinda da guerra, e que revela a história secreta da família, os segredos que Daniel procura há décadas. Um corpo com sequelas físicas da guerra e uma alma ferida que ainda sangra por dentro.

Compreendemos a curta história da Isabella Sempere, mãe de Daniel Sempere, que conhecemos em “O Jogo do Anjo” e cujo passado começamos a compreender em “O Prisioneiro do Céu”. No entanto, e apesar de ser um livro de término, é um livro com histórias únicas e novas aventuras, com Alícia Gris (numa alusão a Alice no País das Maravilhas) à qual somos apresentados pois é a escolhida para investigar o desaparecimento de Maurício Valls, alta figura do Estado Espanhol da época e antigo diretor da prisão de Montjuic, onde tantos presos foram torturados e onde algumas das nossas personagens estiveram num torturante cativeiro.

No caso, terá de trabalhar com o capitão Vargas, também detentor de um passado complicado e que se afeiçoa a Alicia, e os dois, sarcásticos, inteligentes e competentes, são uma dupla deleitosa de acompanhar revelando os mistérios do passado de Barcelona. Por Vargas, a pouco e pouco vamos nutrir uma grande simpatia e afeto e vamos ficar chocados com o seu desfecho, numa das imprevistas revelações no livro. Por quem é nunca aparenta ser quem é! Fica a dica!

Outras personagens secundárias, como Fernandito, um eterno apaixonado de Alicia, deliciosamente simpático e embaraçado, irá nos conquistar pela sua coragem!

Teremos outras mais personagens secundárias relacionadas com o misterioso escritor maldito Mataix, mas que deixarei para a leitura do livro. Não seria possível explicar o pouco do muito da sua história. E da sua envolvência em nós leitores.

Iremos sempre adorar num idolatrar sem fim, o nosso querido Fermín, que nos arrancará sinceras gargalhas quando vivemos instantes de tensão. Que saudades já sinto deste homem que me proporcionou tão bons e sorridentes momentos de leitura. É das personagens que com mais carinho vou guardar na memória. Para mim, é sem dúvida alguma a personagem mais bem conseguida desta saga.

No final, a sede de vingança de Daniel deixa de ser a sua sombra e pode finalmente respirar a paz que precisa ao lado de Bea e Julián que se tornará um escritor e será o autor da história da família, numa analogia simbólica a esta tetralogia. Como se Julián Sempere fosse o nosso autor Carlos Ruiz Zafón.

Se um dia, tiver a sorte de me cruzar com o autor nos caminhos das palavras, apenas queria esclarecer uma dúvida que se instalou em mim. Valls era um vilão e que merecia castigo, mas o porquê do rapto e acima de tudo, faltou uma explicação mais visível do cérebro de toda a situação (o esquema com as crianças e outras inúmeras situações) e afinal quem era essa personagem que não digo o nome para não arruinar o espanto dos leitores que ainda irão ler estes livros!

Um livro brilhante que deve ser lido no seu tempo de absorver cada frase, cada ideia, cada sensação. Um livro que irá connosco para qualquer lugar pois será uma parte de nós, sobretudo nas últimas 200 a 300 páginas quando tantos mistérios se começam a deslindar.

Recomendo e aconselharei sempre esta tetralogia a todos pois tanto fica por dizer neste meu texto de opinião que só poderá ser dito durante a leitura desta obra prima da escrita mundial.

Deixo-vos duas dos milhares de frases que me conquistaram durante este livro:

“Uma história não tem princípio nem fim, só portas de entrada. Uma história é um labirinto infinito de palavras, imagens e espíritos esconjurados para nos revelar a verdade invisível a respeito de nós mesmos. “

“Escrever é reescrever – escrevemos para nós e reescrevemos para os outros.”

Boas e excelentes leituras!

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publicado por Ana Cristina Gomes às 18:00

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