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O sopro mágico das palavras

O sopro mágico das palavras

#opinião# Carlos Ruiz Zafón "O Príncipe da Neblina"

Quando tempos complicados de leitura se agarram às manhãs, há que recorrer aos antibióticos perfeitos. Neste caso, recorrer a autores cujas palavras me embalam e acalmam. Carlos Ruiz Zafón, uma descoberta com pouco mais de um ano, é um desses mestres da escrita. E como ainda tinha livros em falta, lá fui eu em busca da Trilogia da Neblina. Os seus primeiros livros, mais juvenis, porque as personagens são sempre jovens, mas que todos nós podemos ler.

Por isso, numa segunda-feira agarrei no “Príncipe da Neblina” e lá fomos os dois para aquele encontro matinal de olhos no jardim.

Podemos resumir a história de forma sucinta: Um diabólico príncipe que tem a capacidade de conceder e realizar qualquer desejo... a um preço muito elevado. 

O novo lar dos Carver, numa remota aldeia da costa sul inglesa, em 1943, na fuga da guerra, está rodeado de mistério. Respira-se e sente-se a presença do espírito de Jacob, o filho dos antigos donos, que morreu afogado.

As estranhas circunstâncias dessa morte só se começam a perceber à medida que os jovens Max, a irmã Alicia e o amigo Roland vão descobrindo factos muito perturbadores sobre uma misteriosa personagem de seu nome… o Príncipe da Neblina.

Os três jovens terão de enfrentar esta diabólica figura capaz de tornar realidade todos os desejos em troca de um elevado preço.

O relógio que anda em sentido contrário. O gato se adopta a ele mesmo naquela família. O bosque e as estátuas de pedra. Os filmes de Jacob. O navio afundado e o farol. O avô de Roland.

O início da criação de personagens, ainda com muitas arestas para limar (e como limou bem essas arestas na tetralogia do “Cemitério dos Livros Esquecidos”). A personagem do Príncipe da Neblina precisava de um pouquinho mais de trabalho, de uma aura ainda mais sombria. Mais peso. Para o odiarmos. É uma descrição que às vezes não se entranha logo. Mas como Zafón foi aprendendo a desenhar personagens que se entranham em nós!  

No entanto, a história seduziu-me de tal modo que em dois dias tinha terminado o livro. Um enredo interessante e algo misterioso (Zafón já a mostrar este seu lado de terror e escuridão nos seus livros). A velocidade da leitura foi vertiginosa pois queria perceber os contornos da história. As pontas soltas que Zafón ia deixando ao logo da trama. O que o avô de Roland omitiu. E afinal como aconteceu a morte do filho dos antigos donos da nova casa de Alicia e Max? Muitas perguntas para um final inesperado e surpreendente.  

Neste livro escrito há tantos anos, já é notória a tendência de Zafón para uma escrita melodiosa, simples flores de palavras.

Um livro de uma simplicidade que encanta. Que mesmo assim vicia.

Ainda com alguns aspetos para melhorar, a genialidade do autor já lá está a ser trabalhada.

Um livro que nos relembra que sem um começar nada se pode tornar soberbo!

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