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O sopro mágico das palavras

O sopro mágico das palavras

Carta para uma avó

Querida avó,

Nesta data que não queria assinalar, escrevo-te esta carta, para que a possas ler quando o vento soprar estas palavras até ti. Já lá vão 7 longos anos quando nem tempo nos deste para te dizermos adeus. Não esperávamos! Ainda tinhas tanto para ensinar! Partilhar essa tua sábia experiência de vida. Mas a tristeza na desilusão das pessoas fez-te partir mais cedo do que era suposto. Não aguentaste essa dor dentro de ti, depois de uma vida sofrida, a velhice não o devia ser. Por isso, cansada, resolveste viajar para o teu paraíso, para lá poderes estar em paz. Para que não víssemos as lágrimas no teu coração.
Ao escrever esta carta, viajo nas palavras e nas recordações do tempo. Lembro-me da infância naquela quinta, onde ainda hoje as flores nascem em teu tributo. Lembro-me das quedas na terra! Lembro-me do sorrir! Transpiro nas memórias das tardes quentes de agosto, dos almoços à sombra do castanheiro centenário que se curvou perante a tristeza da tua partida. Sinto o cheiro da bola de carne e da broa ao sair do forno de lenha, demasiado quente para comer, mas impossível de resistir. Sou capaz de fechar os olhos e sentir a mata, os pinheiros, o correr com calma para não escorregar. Sou capaz de sentir as memórias vivas embora já tenham passado anos e anos. Memórias nunca esquecidas e sempre guardadas. De um tempo que não volta.
Vou até à janela da cozinha e ainda te vejo sentada num banco, a olhar as hortas em frente, num cenário urbano campestre, que trazia na tua saudade as tuas plantações. Vegetais e fruta com sabor único que não volto a saborear! Olhavas horas a fio para estas hortas enquanto a tua mente divagava para um passado no campo que estava perdido, mas sempre agarrado a ti, porque tu e a natureza viviam numa melodia única de uma dança que poucos conseguem dançar.
Nascemos no mesmo mês e no mesmo dia (embora com um registo de certidão diferente) de gerações distintas, e quem sabe seja essa a razão pela qual temos algo tão em comum que só nós sabemos. Um segredo só nosso! Partiste antes de me ensinares mais sobre o caminho que descubro em mim a cada dia. Partiste antes que te pudesse fazer as perguntas que sufocam o meu espírito. Porque saberias sempre o que me dizer. Mas sei que onde quer que estejas, me estás a ver e a sentir estas palavras. Tal como te sinto quando durmo, mas nunca sei se estás perto de mim para me dizeres para não desistir e manter a esperança viva ou se me reconfortas pelo meu mais profundo sonho estar a morrer. Não consigo perceber a linguagem dos teus sonhos no meu sono. Desisto ou continuo? O meu grande sonho morreu ou ainda pode renascer? Perguntas sem a tua resposta.
Escrevo-te na lágrima da saudade que cai no rosto e na saudade dos teus sapientes conselhos, que tanta falta fazem! Sei que os teus raios de luz vão iluminar o meu caminho, para que a mesma tristeza que um dia te levou para longe, não seja também a tristeza que fará definhar a minha alma.
Escrevo-te porque a memória não esquece. Escrevo-te na saudade. Escrevo-te porque sei que as palavras chegam até ti nas asas dos anjos.
Escrevo-te esta carta porque escrever é aquilo que sou, é perpetuar as minhas emoções no papel. A emoção da única homenagem que te posso dar hoje: as minhas mais sentidas palavras escritas por uma alma apertada na saudade.
Continua a viver na alegria desse teu paraíso e não te esqueças, escreve-me nos meus sonhos!

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