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O sopro mágico das palavras

O sopro mágico das palavras

Décimo primeiro dia de confinamento....

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Ao décimo primeiro dia de confinamento, calaram os bancos de jardim. Mas a nossa garganta continua ativamente ruidosa em esperança. Amordaçaram a voz destes bancos com fitas vermelhas e de plástico que as tempestades modernas batizadas com os nossos nomes levarão no ar e irão poisar algures por aí, num outro jardim, num outro lugar. Para daqui a uns anos, os restos de fitas serem uma raíz venenosa de químicos que adoecem a terra. Talvez nessa altura a Covid seja já só história de livros. A verdade é que a nossa mãe Terra dispensava a soma da doença com extra plástico. Não podemos nós lutar contra este vírus sem assassinar ainda mais o nosso planeta? Que faremos nós quando estivermos saudáveis e a nossa casa apodrecida? Não haverá jardins para bancos, palco de amenas cavaqueiras.
As conversas destes bancos estão numa pausa demasiado prolongada no tempo. Os mais velhos falam agora com as paredes. Veem aqueles programas diários que nada de amor trazem, apenas tragédias, o fútil, o vazio. Uma apatia de olhar perdido num ecrã. Resta-lhes a janela, para observar a liberdade dos pássaros, que poisam nas árvores e que estranham a ausência do movimento de corpos pelas ruas.
Embargaram sem data de fim, o meu banco dos intervalos do computador. Onde parava e descansava a mente de ficheiros, aplicações, chat, sites e afins. Onde poisava os sacos depois das compras ou onde abria as encomendas dos CTT com os meus Outlander pois não conseguia chegar a casa sem sentir os livros nas minhas mãos. O meu banco onde via as rotinas dos estranhos. Onde sentia a agitação saudável das ruas. Por onde passavam olhos de amor e sorrisos de afetos. Onde ia buscar tranquilidade. Onde me ofereciam paz. Onde colecionava emoções e sensações.
Conheci este banco no meu teletrabalho. Era a maneira mais perto de poder apanhar um pouco de ar. De respirar ar solto e não o ar rarefeito do meu quarto. Uns minutos ali sentada que me eram ouro. Talvez minutos de diamantes.
Gosto deste banco de calçada com vista para a estrada só porque sim. Não porque agora o interditaram e nós gostamos sempre do que nos é proibido. Já aprendi que temos de sentir as coisas no seu tempo de existência, não depois de desaparecerem.
O meu coração está aconchegado de doces memórias deste banco. Irrisórias, irrelevantes insignificantes para tantos, caso as partilhasse. Isso pouco importa. Ainda temos tanto para aprender para valorizar um sorriso que seja. Como se fosse banal, mas não o é. É uma preciosidade.
Para mim, se tiver apenas uma única e infinita lembrança do mais trivial gesto de afeto, despercebido para tantos, que aquele banco tenha testemunhado, já terá valido a pena lá ter estado sentada.
Por isso, podem interditar o meu banco, mas nunca poderão vedar o meu coração do amor que lá sentiu e que trouxe comigo para este confinamento.