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O sopro mágico das palavras

O sopro mágico das palavras

Deitar-me!

O relógio pendurado na parede acena-me nos ponteiros. Diz-me que a vida já dorme.
Deito-me porque sim. Porque dizem que tem de ser. Mas não me apetece olhar para o vazio silencioso do quarto. Um silêncio que me atormenta noite após noite. O silêncio dos meus pesadelos.
Não me deito para dormir. Deito-me para fechar os olhos e poder falar contigo. As nossas eternas conversas de olhos, sorrisos e indiferenças fingidas.
Não me deito para repousar. Deito-me para fazer uma viagem nocturna de corpos inertes e almas vadias. Tocar-te. Beijar-te. O prazer do abismo do teu corpo.
Não me deito para sonhar. Deito-me para chorar a alma. A dor que escondo dos outros explode nas lágrimas que as estrelas ouvem e pacatamente continuam a iluminar a noite, cegando os meus olhos de um negro fúnebre.
Não me deito para descansar. Deito-me para um dia acordar contigo num novo dia. Mas esse dia teima em não ser escrito no meu calendário. Todas as manhãs rasgo um pouco mais da vida até ao dia que não mais um fragmento de mim restar para ceifar.
Deito-me para fingir que acredito que um dia vou conseguir descansar a alma. Sossega-la no meu abraço embalado por ti.
Por agora deito-me nos lençóis da solidão que gela o coração e me deixa sonâmbula nos dias da vida que restam até voltar a poder….apenas dormir…porque as almofadas acolhem o teu rosto. E dar-te a mão para sonharmos.
E nesse momento poderei dormir acordada no sempre que ainda sobra para olhar para o amor que és.
 
Imagem :Internet

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