Dia 54 de confinamento e fiz pão

Dia 54 de confinamento.
Continua tanto e tudo por aí fechado. E nós, por casa, vamos continuando. Talvez, por isso, nos haja tempo para experiências culinárias. Desta vez, escolhi tentar fazer pão sem gluten. Aprender novos ingredientes como fermento seco de padeiro que fica uns minutos a ativar ou polvilho doce. Conhecer novas farinhas nunca experimentadas como a de trigo sarraceno e juntar farinha de arroz. Envolver tudo suavemente e delicadamente como o pão deve ser porque é dos alimentos mais sagrados que temos. Deixar a levedar algumas horas a recordar os tempos idos em que via aqueles alguidares da minha avó com a massa a descansar até ir ao forno de lenha. Não foi em cima das pedras da quinta da minha avó que esta massa levadou, mas perto da janela onde tantas horas ela passou a olhar o verde das recordações enquanto esteve por minha casa.
O forno é elétrico. Tão diferente daqueles fornos aquecidos a lenha de tronos soltos. Que coziam vários pães ao mesmo tempo. Aquela crosta tostada que estes pães modernos não conseguem ter.
Cheira a pão, mas o aroma não é o mesmo que tenho guardado na memória do olfactiva. Esse perfume a pão que se espalhava nos caminhos e na casa. E ainda quente, com manteiga derretida, conforta qualquer alma. Ou até simples a queimar a língua. Que bons tempos esses sem as intolerâncias alimentares de hoje.
Nesses tempos de criança, o pão era tão mais saudável, as farinhas ainda eram naturais, a água era pura. Era tudo tão mais sadio.
Comer o pão amassado pelas mãos da minha avó era saborear um pão feito de amor que só agora compreendo como a comida é tantas vezes feita de carinho e afetos.
Esta minha experiência de pão mais saudável até correu bem. Cozeu, é comestível, é saudável, e foi feito sem pressas ou expetativas. E teve os ingredientes da tranquilidade e amor e esses são os mais importantes.