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O sopro mágico das palavras

O sopro mágico das palavras

Dia 57 de confinamento e os demónios

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Dia 57 de confinamento.
O melro no alto do ramo do tronco da árvore canta-me turbulentas emoções. Vou espairecer depois de enfrentar alguns demónios que vivem nas minhas profundezas. Desafio deste universo que me obriga a estar ali a afugentar fantasmas de uma vida. E eu mando-os embora. Mas fico cansada. De corpo quebradiço. Enfrentar medos esgota-nos.
Os pássaros quase na sua hora de recolhimento e sem frio desse vento gélido que nos fustiga os olhos ainda cantam. E eu ouço-os. Paro a olhar o melro que me deixa tirar uma foto. Agradeço e continuo a caminhar numa sonoridade melancólica que me embala o coração.
Depois uma tristeza que me inunda a alma ao ver-te. Talvez por causa desses demónios que enfrentei. Ou talvez por causa de ti. Por todas as emoções que me és. Ou quem sabe por estar de costas para ti. Porque calhou. Porque quis. Porque talvez seja tempo de um duro desapego a fazer. Tantas frases retóricas. Sem respostas. Sem sinais de caminho a seguir. Perdida de sentidos de direção.
Vai na volta os teus demónios sentiram os meus e foram visitar-se uns aos outros. São amigos de vidas. Trazemos demónios connosco, até podem ser diferentes, que o são, mas eles sentem-se, pressentem-se e compreendem-se como nós nunca nos iremos compreender.
Continuei a andar de passos lentos, a uma velocidade de caracol porque não havia pressa nos meus pés. A minha mente e o meu coração precisavam de estar por ali a recuperar. Andar tornava-se doloroso. Apetecia-me chorar, mas não há problema, está tudo bem. São as minhas emoções a fazerem-se ouvir dentro de mim. E eu fiquei a observar-me.
O desapego dói muito. Mas haverá sempre algo tão visceral entre nós que só olhar para o teu rosto me traz todas as memórias que me correm no sangue. Chegará o dia em que estarei livre. Quando ficares no mais doce lugar que tenho cá dentro. E estarás sempre a obrigar-me a continuar e nunca desistir de mim nem disso que é o amor. Nem em dias tristes me fazes esquecer que és amor.
Sinto um aperto tão intenso dentro de mim. Torna-se difícil conter as lágrimas. Soltar estes sentimentos que me assolam. Nem sempre temos de estar de sorriso aberto. E está tudo bem. Há horas que precisamos de ir lá ao fundo do nosso ser e chorar, limpar o lixo tóxico e regressar. E isso é tão preciso para depois estar ali a assobiar à vida junto ao melro.
Talvez tudo seja um misto de demónios, os meus que vieram hoje dizer-me que estão cá. Mas estão mais fracos. Os meus e os teus demónios juntos a trautear-nos na alma para depois ficarmos bem.
Só tenho de aprender a cantar com as minhas sombras, mesmo que tenha dias assim como hoje, de olhos confinados ao silêncio. 

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