Terça-feira, 23 de Outubro de 2018

Julia Navarro "História de um Canalha"

Execrável. Assim, uma palavra com esta conotação depreciativa para definir não o livro mas a personagem principal!  

Julia Navarro, no seu estilo já muito familiar de um misto de biografia com romance, vai-nos dar a conhecer Thomas Spencer, aquelas personagens que vamos guardar porque desejamos nunca a ter conhecido. O livro, dividido em quatro partes: Infância – Juventude – Maturidade – Declínio, narra todo o percurso de vida de Thomas Spencer na primeira pessoa, ou seja, é ele mesmo que relata toda a sua vida e é do mais atroz que se possa imaginar. Volto a repetir a palavra….execrável!

Thomas não é um assassino, é um autêntico canalha, aquele tipo de pessoas que infelizmente proliferam por aí aos tombos.

Um homem que na infância desprezava a mãe pela sua ascendência latina, que odiava o irmão porque todos consideravam Jamie um rapaz perfeito. Um ódio que perdura toda uma vida. Um homem sem qualquer tipo de sentimentos, sem amor por ninguém, sem afetos, sem consideração, sem respeito. Um homem que adora ver os outros sofrer. Um homem que humilha e maltrata as mulheres. Um homem que conduz os outros a mortes violentas. Que destrói vidas sem qualquer peso na consciência. Muitos jogos de poder no meio destas páginas.

Vejamos mais adjetivos para descrever esta personagem! Mentiroso, vingativo, um manipulador nato, difamador. Ah e sem escrúpulos. Já são adjetivos mais que suficientes para perceber que tipo de pessoa é este homem!

Mas não faz tudo isto, não é tudo isto…..lá vou eu dizer outra vez…..não é execrável de forma inconsciente. Ele sabe o que está a fazer. Conhece as consequências dos seus actos. Até põe muitas vezes e em muitas situações da sua vida, a hipótese de se tivesse feito as coisas da forma mais correta. Mas termina sempre essa divagação com “mas não fiz assim e não me arrependo”. Constatamos assim o elevado índice de frieza desta personagem que não sofreu pela morte dos pais. Que nunca mostrou qualquer tipo de sentimento por alguém. Apenas o imenso medo de perder Esther, não a mulher que amava porque Thomas não sabe o que é amor, mas porque precisava dela. E mesmo assim, toda a convivência e relacionamento com Esther está cheio de falsidade, de teatro, de manipulação, de jogos, de interesse. Nunca foi autêntico.

Aguardamos sempre que por um momento Thomas tenha um acto de bondade ou simpatia, mas é uma utopia do leitor que ainda acredita que a personagem se pode redimir.

Podemos afirmar que este livro retrata os tempos actuais onde a publicidade domina o consumo das massas. Uma reflexão sobre o mundo da comunicação e de como, através da comunicação, se pode manipular a opinião pública. Os jogos de interesses subir na vida. Os casamentos de aparências. A violência doméstica e emocional. Temas muito presentes neste romance. Um livro que toca no âmago das feridas dos tempos modernos.

Confesso que as últimas 80 páginas foram lidas de um sopro no final de um domingo, porque tinha uma curiosidade imensa com o desfecho do execrável Thomas. Queria imensamente que fosse punido por todo o mal que espalhou durante a sua vida. E não é que mesmo depois de moro continuou a ser um mestre da canalhice? Vejam como isso é possível, lendo este livro!

Embora seja um livro bem escrito, com história, não é para mim, o melhor livro de Julia Navarro. Fico feliz por ter conhecido esta autora com o maravilhoso “Diz-me quem sou!”. Se o primeiro contacto fosse com este, não sei se ficaria no top dos meus autores. Por isso, venham mais livros desta escritora!

Calculo que para a autora não deva ter sido nada fácil escrever na primeira pessoa de um homem como Thomas Spencer. E por isso, um livro que deve ser lido! E garanto que enfadonho ou descritivo não tem nada.

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publicado por Ana Cristina Gomes às 23:05

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