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O sopro mágico das palavras

O sopro mágico das palavras

Ontem não te escrevi

Ontem não te escrevi. Estava anestesiada nesses olhos teus. Tão mel-outono. Os meus eternos preferidos. Nessa profundidade abismal que me és ao coração. O meu buraco negro onde me abeirei sem te desviar de mim. Quis que nos olhassemos demoradamente sem medos. Só o nosso silêncio. Sem ouvir as vozes que nos rodeavam.
Ontem não te escrevi. Tive medo de perder o teu olhar nas minhas palavras. Quis escrever-te o olhar em mim. Mas os joelhos não se aquietavam. As mãos desmaiaram. A alma adormeceu agarrada à memória que ficou desse teu olhar de ontem. Podes voltar a olhar sempre assim? Como ontem. Intenso e nessa profundidade de tudo o que te guardas em ti. E é tanto que guardas até de ti mesmo. Vê-se esse peso no teu rosto. Nas rugas que me falam de ti.
Queria dizer-te que não dormi porque tinha medo de me esquecer daqueles nossos olhos. Dormi, confesso! Mas dormi abraçada aquela fração de segundo que sorriste. Numa tranquilidade quieta de quem se confessou a si própria e vai sentir o que te tiver de sentir.
Ontem não te escrevi mas os meus olhos escreveram-te no reflexo de sentido único dos nossos olhares. Leste-me a alma. A transparência que me vês. Se pudesse amar os teus olhos, amava-os tanto.
Mesmo que não te escreva em palavras não há dia em que a minha alma não te escreva em mim.

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